vida adulta

Não tem jeito, todo outubro é a mesma coisa. Meu aniversário se aproxima e começo a entrar em crise. Não crise por envelhecer propriamente dizendo, mas aquela crise de me perguntar o que estou fazendo da minha vida.
 
Daqui a exatos 14 dias completo 33 anos. A idade de Cristo, uns dizem. Eu digo a idade da minha mãe quando nasci. Estou lendo Micheliny Verunschk, Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida, e este trecho me fala muito alto: “[…] As duas que não engrossaram as fileiras do catecismo com rebentos a serem salvos foram Teresa e Lucinda. Uma, pelo inexorável do caminho que seguiu, caminho a que um poeta chamou tão bem pela alcunha de iniludível. A outra, porque mal terminou o colegial, acabou por mudar-se com a família para um grande centro onde fez a vida que muitas mulheres contemporâneas fazem: vida acadêmica, docência, boates e homens (e algumas mulheres) a granel, casamento tardio e filhos nem pensar, pois, graças a Deus, e isso é uma ironia que sai da boca dessa moça, nem todos nasceram para ovelha ou vaca parideira.”
 
Não, não nasci nem cresci numa cidadezinha hiper-religiosa, muito menos me mudei para um grande centro e segui carreira acadêmica, docência, etc., entretanto, sou solteira, não vislumbro casamento ou maternidade — esta ainda menos que aquele — e sou uma mulher adulta cuja maioria das amigas de colegial é casada com filhos.
 
Em todo período que antecede meu aniversário, pego-me pensando o que fiz da minha vida até aqui e o que posso fazer dela a partir de. A partir do próximo 23 de outubro, a partir do dia em que um novo ciclo solar inicia para mim. Nunca fui pessoa de muitos planos ou de grandes aspirações. Se me perguntarem um sonho, demorarei a responder, tentando encontrar alguma resposta que seja satisfatória e meio envergonhada por não tê-la na ponta da língua, de prontidão à espera da pergunta.
 
Gostaria que alguém me dissesse que se sentir totalmente perdida e um verdadeiro embuste na condição de adulto é normalíssimo. Gostaria ainda mais de saber isso desde a adolescência porque, embora nunca tenha sido pessoa de grandes planos e sonhos, lá atrás eu me imaginava alguém seguro, realizado, bem de vida, adulto aos 33 anos.
 
E agora estou aqui, de novo me perguntando quais os feitos realizei desde que deixei a adolescência e me tornei adulta. Me pergunto quando me tornei adulta de fato e o que deveria marcar essa transição. Me pergunto se um dia conseguirei ter uma casa organizada e bem decorada, se farei faxina semanalmente, se terei lençóis e roupas passadas, se farei minha própria comida. Me pergunto se conseguirei me mudar para um apartamento melhor, num andar alto, com sacada de onde eu veja a copa das árvores e me sinta à vontade em minha casa. Me pergunto se serei adulta de verdade algum dia.
 
Faço 33 daqui a duas semanas e me sinto uma garotinha perdida e amedrontada. Alguém, por favor, me diga que isso é normal, por mais triste que isso venha a ser.
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4 de outubro

curiosidade sobre o dia 4 de outubro:

há exato um ano, decidi adotar Dandara. falei com a Sheila que ficaria com a gatinha que o Yohan encontrara no bueiro.
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era dia de São Francisco de Assis, mas nem me dera conta da coincidência.

Danda só veio para casa dia 8 de outubro, pois não quis trazê-la para um novo lugar e ter de deixá-la o dia todo sozinha, numa casa desconhecida e sem ninguém. peguei-a no fim de semana, quando poderia fazer companhia a minha nova gatinha.

mas era dia de São Francisco de Assis quando decidi que não moraria mais sozinha. a partir daquele 4 de outubro, Dandara já era Dandara, já era minha, já começava a ocupar os espaços onde planejava deixar seus pertences.

era dia de São Francisco de Assis. 

79 anos

meu pai faleceu em novembro de 1993, então com 55 anos.

se ainda estivesse encarnado, hoje, 28 de setembro de 2017, completaria 79 anos.

vivi apenas 9 anos com ele, hoje mal me lembro de sua imagem, a memória falha, tento buscar não sei onde na mente lembranças.

é estranho quando vivemos muito mais tempo sem a pessoa do que os anos em que estivemos juntos. nada previne a ação do tempo. meu pai se foi na minha infância, e já há muito não sou criança.

sempre me disseram que sou a cara dele, e eu mesma reconheço em mim traços físicos que me remetem a meu pai, mas hoje em dia também me dizem ser a cara de minha mãe. quanto mais envelheço, torno-me mais parecida com ela e menos com ele. gosto de saber que sou parecida também com ela, a matriarca, quem me educou e criou, quem me ensinou a escrever a partir do abecedário da xuxa, quem segurava a rosa vermelha à espera de minha entrada na formatura, quem chorou comigo todas as vezes em que meu coração se despedaçava.

no entanto, hoje é dia dele e meu pai está se apagando em mim.

às vezes, só queria ter podido lhe dar mais um abraço e dizer que o amava muito.

independência emocional

Conversava com uma colega sobre relacionamentos amorosos, heterossexuais vale ressaltar, e me lembrei de todos os relacionamentos que tive, dos mais sérios aos mais fugazes.

Quanto aos mais sérios, tive quatro namorados. Todos namoros longos, o que durou menos de dois anos e meio, o que durou mais de quase cinco anos.

Passei grande parte de minha adolescência e início da fase adulta em relacionamentos sérios. Não me arrependo, só namorei pessoas de quem gostava muito. Mas, talvez por ter começado a namorar cedo — o primeiro namorado aos 16 —, talvez porque o feminismo só começou a entrar de verdade em minha vida depois dos 25, olho pra trás e me arrependo de algumas coisas que fiz.

Meu primeiro namorado me presenteou com uma aliança de compromisso dias antes de irmos a uma micareta, porque queria que soubessem que eu tinha namorado. Queria-me marcada, com um cartaz “tem dono”. Éramos adolescentes, mas quando penso nisso sinto tanta raiva que tenho vontade de voltar 15 anos no tempo e dizer poucas e boas a ele, e terminar o namoro ali mesmo.

Meu último namorado foi o mais consciente nessa questão de individualidade, e quem mais me ajudou a entender a importância de sermos nós mesmos, hoje vejo. A ironia está no fato de eu ter sido muito dependente dele, emocionalmente falando, o que me deixou acabada quando terminamos. Mas hoje sou grata. Graças a ele, entendi e pude desenvolver em mim essa autossuficiência, ainda que tardia para o nosso relacionamento.

Nunca mais quero estar num namoro ou num rolinho qualquer em que me sinta mal sem a pessoa por perto ou que tenha enjoos só de pensar no término. Nunca mais quero estar num relacionamento em que não me sinta eu. Hoje vejo o quanto o amor romântico escraviza mulheres, o quanto é utópico e impossível. Nada de declarações mirabolantes de afeto. Quero, antes de tudo e principalmente, meu amor próprio. Qualquer outro virá depois. E tem que ser assim.

Concluímos, eu e a colega, que não existe a menor possibilidade de um relacionamento ser saudável se perdemos a identidade ali. Se começamos a confundir nossas histórias e necessidades com a do parceiro. Repito, falo parceiro porque de minha perspectiva, heterossexual.

Que cada vez mais mulheres libertem-se da dependência emocional.

Perfumada

Morena é a que mora há mais tempo conosco, das três cachorras da casa de minha mãe.
Lembro-me do dia em que chegou, assustada, magra, e comeu todo o braço do sofá recém-reformado nos dez minutos que a deixei sozinha na sala.
Lembro-me de contar o caso a minha mãe por telefone, pois ela estava na praia, e ela não ficar brava com a cachorra, mas comigo, por ter deixado Morena presa numa casa que não conhecia, ainda que por pouco tempo.
Morena, em sua adolescência, adorava passear e voltar com osso ou pão que a vizinha do quarteirão de cima lhe dava. Quando osso, ela o deixava em casa e retornava para buscar outro.
Sempre foi conhecida por todos do bairro. É uma cachorra simpática, inclusive sorri. Passavam em frente ao portão e gritavam “Moreeeeena!”, e lá ia ela toda alegre, sorrindo, girando o rabo, rebolando, falar oi para quem a chamava.
É a mais educada das três. Jamais fica em cima de quem quer que seja pedindo comida. Jamais. Deita-se e espera que alguém lhe dê algo. E, quando ganha, abocanha o naco de comida com os olhos arregalados, numa expressão só dela.
Quando volta de seus passeios diários pelo bairro, fica paralisada respeitosamente enquanto Cindy, a poodlezinha velhinha da casa, a cheira toda, verificando os caminhos e os encontros da “irmã”.
Morena também teve seus tempos de aprontar. Aprontar para nós, humanos, porque para ela era como se se perfumasse — como explica minha mãe — quando rolava nalguma fralda suja encontrada pela rua ou na carniça. E fazia isso com uma frequência assustadora.
Todos os dias vou à casa de minha mãe. Tomamos café da manhã juntas. Hoje, ao estacionar o carro, vi Morena descendo a rua correndo, toda feliz. Ela mora conosco desde 2008, quando tinha aproximadamente um ano, segundo a veterinária. Então, hoje Morena tem dez e já é uma senhora a olhos vistos: no jeito de andar, de deitar, de respirar, nos tantos quilos adquiridos desde que chegou. Mas hoje ela estava com aquele brilho no olhar de criança que apronta, feliz da vida, ofegante…
Brinquei. Moreninha, estava passeando na manhã fresquinha?, e ela abanando o rabo, que já não consegue girar como antes, toda alegrinha… De repente, olhei seu dorso e comecei a sentir o cheiro, o fedor, o horror… Morena achou alguma carniça onde se esfregar. E estava toda feliz, felicíssima na verdade, por isso.
Entrei maldizendo a cachorra, e ela nem aí pra mim. Nada a tirava daquele “êxtase perfumado”. As outras duas sentiram o cheiro e Moa começou a se esfregar no chão onde Morena se deitara…
A casa tomada por aquele cheiro fétido. Apodrecida. E as cachorras ali, a-do-ran-do.
Melhor que perfume francês, já dizia minha mãe.

Os ipês brancos já se foram

Os ipês brancos já se foram
e não notei suas pétalas
A dor incomodava-me a vista,
fazia uma névoa sobre todas as coisas

Não podemos ser um peso
para quem amamos
Não podemos ser um peso
para os outros tampouco

Caminhando, passei pela árvore
de tronco pelado
Os galhos, finos, frágeis,
o tempo implacável

Os ipês brancos já se foram
e não notei suas pétalas
Não podemos ser um peso
para quem amamos

Não podemos ser um peso
para os outros tampouco