Feliz aniversário, mãe!

Gostaria de falar um pouco sobre a beleza da vida. Para mim, é importante fazê-lo porque não sou muito de agradecer, é bem mais frequente me ver reclamar das mazelas. Mas agora quero falar da beleza da vida e por que vale a pena estar viva.

Acordei mais cedo. Como falei há uns dias no Facebook, terei de fazer uma cirurgia, e fui fazer exames de sangue. Mas, antes, passei na casa de minha mãe para pegar uma encomenda que chegara para meu primo e havia combinado de lhe entregar hoje.

Hoje é aniversário de minha mãe. Pensei que não fosse encontrá-la acordada, passei na casa dela antes das 6 h 30 min, mas ao entrar ouvi a voz da Vitória conversando com a avó. “Tiiiiia!” e passinhos pequeninos vindo ao meu encontro. “Bom dia, linda da tia, você sabia que hoje é aniversário da vovó?”, e ela fez que sim com a cabeça. Minha mãe disse que já haviam cantado parabéns e tudo. Dei-lhes um beijo, peguei a encomenda do Cláudio, e segui para o laboratório.

Já no caminho para o trabalho, do carro vejo uma folha se desprendendo da árvore e, como uma bailarina rodopiando, dançando rumo ao solo. Uma folha grande, marrom, com ramificações. Uma folha bailarina dançando na brisa da manhã de terça-feira. O clima estava agradável, os raios de sol por entre as folhas fazendo o asfalto meio iluminado. A vida tem suas belezas.

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E hoje ainda mais. Porque ouvir a voz dela logo cedo é ter a certeza de ser abençoada. Porque ter nascido dela e ter tido a oportunidade de crescer a seu lado é ter a certeza de ser abençoada. Porque comemorar seus 66 anos a seu lado é ter a certeza de ser abençoada. Porque poder chamá-la de mãe e abraçá-la e beijá-la e reconhecer-me em sua voz, em sua impaciência, ansiedade e manias  —  até mesmo nessas coisas  —  é ter a certeza de ser abençoada. Porque eu a amo e sei que ela me ama. Porque é tão bom ter mãe. Porque espero haver ainda muitos outros aniversários juntas para que, como hoje, eu acorde emotiva e pense na beleza da vida, com suas folhas dançarinas, raios de sol anunciando a manhã e a certeza de que sim, vale a pena estar viva.

Feliz aniversário, mãe!

De um amor suspenso

Durante aquelas férias, sentava-me todos os dias na areia em frente à casa alugada.

Foi assim que conheci Teodora. Ela, jovem mulher, sentava-se a alguns metros de mim e nada dizia. Olhava o horizonte à procura de não sei o quê.

Vários dias se passaram. Comecei a notar um ritual. O horário em que Teodora descia para a praia, a forma como se sentava com as costas eretas, todo o corpo demonstrando tensão, ansiedade, o jeito que sem perceber mexia no cabelo amarrado. Vi-me cada vez mais envolvida por aquela imagem, por aquela espera incessante.

Um dia, Teodora falou algo, uma frase solta, e não sabia que era a mim que se dirigia, pois sequer me olhou. “Eu sei que desta vez não vai voltar, mesmo assim espero.” E, quando me dei conta de que era eu sua interlocutora, acenei positivamente, para que ela prosseguisse, e fui me sentar mais perto dela.

Teodora então contou que era noiva do homem que sempre amara, desde a infância, entretanto, ele só assumira compromisso com ela porque não sabia ser só, porém não sabia tampouco viver com apenas uma mulher. Declarou isso à namorada logo no início do relacionamento, e ela, por amor, aceitou.

Ramiro passou a ausentar-se, fazia viagens longas afirmando ser a trabalho, mas Teodora sabia que havia algo mais, alguém mais. Ela, por sua vez, decidiu que se ele vivia outros amores longe de casa, por que não fazer o mesmo? Porém Teodora não era assim, não conseguia achar tudo bem estar com outros braços, outras bocas, outros cheiros. Sentia-se completamente dele, de Ramiro, e sofria ao perceber que o amor dele não era exclusivo.

“Até que houve um rapaz, ela disse, que veio passar uma temporada ali naquela casa, na ponta da areia”, me apontou a casa na extremidade da praia. “Ele me via todos os dias sentada aqui e então puxou assunto. Conversávamos muito, ele era uma pessoa espetacular, demonstrava real interesse por mim, era perceptível a alegria que o invadia quando eu aparecia na praia depois dele, que já estava ali a minha espera. As tardes começaram a ser mais leves, sentia-me querida como Ramiro jamais me quis, e de repente me vi também pensando naquele homem, comecei a sentir sua falta.

“Quando assumi para ele meu interesse recíproco, vivemos momentos inesquecíveis. Martim era seu nome, e eu me pegava suspirando Martim, Martim, mesmo quando, sentada, olhava o horizonte à espera do retorno de Ramiro. Então meu noivo mandou um bilhete por meio de um dos pescadores dizendo que retornaria dali a alguns dias e que morria de saudades de mim. Comecei a me desesperar. Com Martim, vivia o amor do jeito que sempre sonhara, sentia-me plena, mas meu coração era de Ramiro, e saber de seu retorno em breve me deixava num estado de ansiedade insuportável.

“Falei com Martim. Expliquei-lhe minha situação, que já era de seu conhecimento, mas que agora se agravava. Ele entristeceu, é claro. Martim estava apaixonado. Acho que eu também estava, mas meu amor por Ramiro era maior. Tive de escolher e a escolha foi óbvia. Abri mão daquela pessoa maravilhosa que estava ali, do meu lado, pelo amor que sentia por meu noivo. Nem havia como ser diferente.”

A essa altura, enquanto ouvia o relato de Teodora, já torcia por Martim, esperava uma reviravolta, algo que me indicasse que ela correra atrás dele,  e acredito ter demonstrado isso nos trejeitos, porque Teodora, envergonhada, prosseguiu:

“Mas não pense você que não senti falta de Martim. Não, senti diariamente. Queria correr até a casa da ponta da praia, invadir a varanda, entrar na cozinha, sentar-me diante dele e dizer que ali estava e que era com ele que queria ficar, porém algo em mim falava mais alto, sabia que não podia brincar com os sentimentos de alguém como ele, e tinha certeza de meu amor por Ramiro.

“Martim resignou-se. Imagino que não havia nada mais que ele pudesse fazer, afinal. Eu já tinha deixado claro que esperaria Ramiro, mesmo tendo consciência dos sentimentos que surgiram em Martim, dos sentimentos que surgiram em mim também por ele. Mas era preciso afastar esses sentimentos, meu noivo regressaria e eu queria estar ali, a sua espera.

“Vi o dia em que Martim deixou a casa da ponta da areia. Vi seus cabelos bagunçados pelo vento, a mochila suspensa por apenas a alça do ombro direito, e vi que olhava em direção a minha casa, talvez na tentativa de dizer adeus. Fingi não notar, mas senti meu coração em brasa. Ele se foi, ele não queria ir, mas eu agi como se não houvesse outra coisa a fazer. Martim foi embora e eu sabia que apaixonado por mim, sofrendo. Ele, o homem que reunia tudo o que eu desejava num parceiro. Ele, o homem a quem disse não.”

Teodora parou por uns instantes para retomar o fôlego. Acho que enxugou as lágrimas, mas não sei dizer com certeza porque ela se virou, não quis que a visse chorar.

“Ramiro não voltou. Disseram-me que o viram passeando pela aldeia dos pescadores na semana passada, mas pra cá, não veio. Não bateu na porta, não mandou notícias, nada. E eu sei, eu sinto que não vai voltar…”

E Martim?, eu lhe perguntei. Por que não procura por ele?

“Porque tenho medo de machucá-lo ainda mais. Eu sei que Martim quer meu bem e sei que seria um ótimo parceiro, mas será que eu seria uma ótima parceira pra ele também?”

Sorri amarelo, sem saber o que lhe dizer. Deixei Teodora sentada na praia, à espera de Ramiro que não voltará. Caminhando, segui até a ponta da areia, onde ficava a casa que abrigara Martim algumas semanas antes. Senti a dor daquele homem, senti a dor da paixão vivida e interrompida. Senti também a dor de Teodora, que, abrindo mão de um amor saudável, voltou ao sofrimento, talvez porque já estivesse familiarizada com ele.

Nada mais soube de Teodora, Martim ou Ramiro. Mas sigo torcendo pelo amor suspenso.

 

das bocas que beijei

das bocas que beijei
pouco sei
onde encontram abrigo
onde encerram a noite

pouco sei
dos beijos molhados
que trocam com outras bocas
aquelas que já beijei

se vagam à procura de mim
se riem em busca do meu sorriso
pouco sei
das bocas que outrora beijei

mas de tantas bocas já beijadas
das quais quase nada sei
delas nada quero
só da sua ainda espero

agridoce

hoje mesmo pensava na melancolia. sempre que vejo vídeos que me remetem ao passado, à minha infância, sinto uma dorzinha no peito que não sei definir se boa ou ruim.

acontece sempre. uma amiga compartilhou os desenhos da sarah key e logo me veio essa dor agridoce no peito. os papéis de carta e álbuns de figurinha de ontem, a pasta em que colecionava vários papéis com aquelas imagens.

agora há pouco, compartilhei o vídeo do filme the neverending story, que completou 33 anos no dia 20/7 (minha idade, faço 33 em 23/10). a mesma dor.

aí entendo por que stranger things mexeu tanto comigo. não é a melhor série a que já assisti, mas ela me remete a tudo de ontem, a memórias que não me vêm sempre, a coisas que nem sabia serem importantes, porque sempre acho que minha infância só foi marcada pelo luto — nasci em meio ao luto (a doença de meu irmão, descoberta logo após meu nascimento, e sua morte, ele com 8 anos, quando eu tinha apenas 10 meses) e a morte de meu pai, quando eu tinha 9 anos.

mas não. houve momentos bons na minha infância também. e eles me marcaram, só não estão a todo momento em minha mente. ver stranger things faz com que algo perdido seja de novo vivido.

ver o trailer da segunda temporada não foi diferente. a dor não boa muito menos ruim aqui, a vontade de chorar, a vontade de ser abraçada. uma emoção só.

Stranger Things 2

longa-metragem 

semana passada, vivi como se estivesse assistindo a um filme de ficção cuja protagonista era eu. 

tudo fugia à realidade cotidiana. fosse sonho, acordaria e seguiria os dias normalmente, mas não. foi real. foi muito real. fui marcada por minha própria história. 

do início ao fim da semana, sete dias de uma vida inesperada — nas ações, nos desejos, nos diálogos, nas presenças —, o mundo se reiventando em mim. 

hoje, à primeira vista no espelho, tive vontade de dizer: bem-vinda (de volta). você tem uma série de coisas a organizar, uma série de compromissos a cumprir, uma série de coisas a viver. viva. sinta. mas não esqueça quem é e quem tem lutado para ser há tanto tempo. 

se pudesse, o filme que vivi seria longa-metragem, certamente. mas os curtas também têm seu charme. 

um brinde à arte da vida real. 

que cheguem até vocês

Acredito demais no poder das palavras e da troca.
Sinto que é preciso treinar o expressar-se desde cedo. Treinar nossas crianças para que sejam adultos que consigam expressar sentimentos, sem vergonha, sem medo.
Lembro-me de minha adolescência e do sonho de ser jornalista. Queria fazer jornalismo para atuar numa redação. Nunca pensei em câmeras, em ser âncora, mas sempre em escrever.
O jornalismo se foi. Não passei no vestibular e, quando tive dinheiro para pagar a faculdade, optei por letras. Não me arrependo. O amor pelas palavras e pelo poder delas aumentou durante os anos de graduação. A troca com pessoas incríveis me fez entender que não se tratava de uma ou outra profissão, mas essencialmente das palavras e do que com elas conseguiria alcançar.
Sei que sempre tive facilidade em expressar sentimentos. Nunca os escondi, nunca tentei abafá-los. Ter o Sol num signo de Água me faz intensa. Ter Mercúrio nesse mesmo signo faz com que a comunicação em mim também tenha de ser experimentada de forma profunda.
Já provei o doce e o amargo das palavras. Desde cedo ouço que, quando quero, sei ferir com o que digo. Mas não é do lado ruim das palavras que quero dizer. Na verdade, é do poder.
Ano passado, uma pessoa se apaixonou perdidamente por mim. Sabendo que não haveria possibilidade de transformar a paixão em relacionamento, ainda assim ela se declarou e o fez de maneira tão poderosa, tão clara, límpida e forte, que eu me inundei com aquela beleza.
Às vezes, sonho que estou escrevendo. Só que não sou dedicada o suficiente para deixar ao lado da cama um caderno e acordar para rabiscar o que me veio à mente durante o sono. Talvez fosse necessário para não esquecer. Talvez fosse necessário para tornar real o desejo de me expressar cada vez melhor através das palavras.
Se, como disse Rupi Kaur, “nada importa/ exceto o amor e a conexão entre as pessoas”, pretendo tornar cada vez mais fluente minha habilidade de demonstrar amor pelas palavras. Quero que me vejam em cada linha que escrevo. Quero que se vejam em cada linha que escrevo.
Quero respirar com a certeza de que sou boa nisso, sem medo, sem vergonha. Sentir orgulho de mim mesma e sentir que abraço alguém que me lê, da mesma maneira que tantos autores me abraçaram quando os li.
Quero que cada pessoa com quem tive alguma intimidade saiba que ela está aqui, e que é por meio dos meus textos e das palavras que saltam de mim que consigo expressar parte do arrebatamento que me tomou quando com elas estive.
Não tenho muito a oferecer, sei que vou morrer sem deixar algo grandioso, mas quero que minhas palavras sejam sentidas, porque é através delas que me expresso melhor.

tá foda

em momentos de crise — das mais variadas ordens — é preciso sair um pouco. de casa, de si, da mente. é o que estou tentando fazer.

não há música suficiente para me fazer leve. tá foda pra mim, tá foda pra todo mundo. até pra quem acha que tá tranquilo, tá favorável, na verdade não tá. tá foda.

só não tá foda pra quem tá pouco se lixando pro outro — esse outro pobre, assalariado, preto, mulher, lgbt. esse outro eu e você — ou seja, para poucos poderosos que querem mesmo é que a gente se exploda.

tá foda porque a gente dá um suspiro de alegria, distraído por alguma coisa fora de tudo isso, mas depois cai na real. tá foda porque a gente finge que engole o choro porque, né, já é adulto, mas a vontade verdadeira é deitar em posição fetal e ser cuidado por alguém que nos queira bem.

tá foda porque o mundo é muito louco e às vezes parece que a gente encontrou o alguém que nos quer bem, e aí é massa, né, a gente tenta fazer com que o mundo louco tenha um pouco mais de sentido, mas não. ou é mentira, ou é complicado, ou é mentira e complicado, ou não é hora.

tá foda porque a gente se lasca no trabalho, se lasca com amigos, se lasca com amores. tá foda porque a gente acostuma a se lascar de tanto que cai, de tanto que se machuca.

tá foda porque, ao se acostumar, a gente deixa de acreditar. e a gente fica cínico porque não acredita, a gente fica triste porque cínico, a gente fica amargo porque triste.

daí a gente procura alternativas que faça com que a vida pare. pare um pouco, fuja da realidade doida/doída. e quando a gente experimenta qualquer alegria, qualquer umazinha, ainda que pequenininha mesmo, é tão bom relembrar o que é sentir isso que a gente acha maravilhoso, maravilhosérrimo.

mas, né, tá foda. e o brilho se apaga rapidamente. vem uma, vêm duas, vêm várias notícias para mostrar que ó, tá foda. e a gente vai levando, fingindo que tá tudo bem, fingindo que ainda tem força para lutar, mas lutar contra o quê? contra tudo? contra todos?

queria cantar “ainda resta um pouco de esperança, apesar das desavenças” com vontade, do fundo do meu coração, mas tudo o que sinto é que ó, tá foda.