O fim

Havia dias, sentia-se acompanhada da sensação de despedida. Tudo a emocionava muito, sobretudo as delicadezas. Ouvia a música, a melodia sentimental, e uma faca pontiaguda atravessava seu peito. Logo vinha o pensamento de que aquilo lhe faria muita falta.

O7b50f8f8ffc6db930f22183dba116f9b raio de sol de inverno sobre a grama, a dor da despedida. A cor vermelha da fruta, a dor da despedida. A voz da amiga, a dor da despedida. O tato do abraço, a dor da despedida.

Seria possível pressentir que chegava a hora da partida? Ou seria a insuportabilidade dos dias que lhe trazia a impressão de fim? Não conseguia definir, explicar, entretanto seus olhos marejavam cada vez que a ponta da faca roçava seu peito.

As notas do piano na mente como se alguém dentro de si não parasse de tocar a mesma música há um tempo considerável. Respirava. Uma, duas, três vezes. Copos de água incontáveis na tentativa de acalmar aquela ansiedade, sem sucesso.

Sentia o afago da luz do dia em seu rosto e tudo lhe parecia extremamente belo, de uma beleza que ela não conseguia suportar. Transbordava e não sabia por quê. Andava assim, marejante, por qualquer caminho que suas pernas percorressem. Não havia um só dia em que não fosse pega de surpresa. Via tudo com uma melancolia até então não experimentada.

À noite, tentava conversar com alguma divindade, com a que carregava em si, pedindo explicação. Está chegando a minha hora, perguntava ao nada. Por favor, faça-me entender por que tudo tem me chegado como se logo não pudesse mais experimentar aquilo. Adormecia torcendo para que no sonho as respostas lhe viessem, mas não vinham, e acordava ansiosa.

E quando a dor lhe abraçava, fechava os olhos na tentativa de recuperar algum desses momentos de finitude e beleza para sentir-se parte integrante do que, segundo sentia, em breve não poderia mais presenciar. Assim, os dias se passavam, e ela, sem saber exatamente por quê, seguia, entre a dor e o assombro do fim e do belo.

lendo Elena Ferrante

Avancei a noite sem me importar em perder horas de sono lendo Elena Ferrante. Quem é meu amigo no Facebook, sabe que estou lendo a série napolitana da escritora, sabe que estou no segundo livro da tetralogia e sabe, principalmente, que me torno monotemática quando algo me chama muito a atenção.
Por mais que este texto seja motivado pela leitura, não quero falar especificamente da história, mas sim do assombro que é amadurecer. As protagonistas da série passam da adolescência para a juventude neste volume — História do novo sobrenome —, acompanhamos muitas transformações não só em suas vidas, mas também na de todos do bairro onde cresceram.
Como é difícil envelhecer, entender o funcionamento da vida, da sociedade, das relações estabelecidas. Como dói reconhecer a opressão, a falta de sempre e as perdas que enfrentamos ao longo da existência.
Quanto mais nos aprofundamos nos mistérios da vida, mais entendemos da dor. Mais nos encontramos em histórias sobre um, mas que falam para e sobre muitos.
Ler Elena Ferrante está distante de ser um passatempo, uma leitura fácil. Porque reconheço nas páginas a história: a minha, a de meus antepassados, a de tantas pessoas que passaram, se não pelas mesmas dificuldades daquelas pessoas do bairro napolitano narradas pela voz de Lenuccia, por outras muito semelhantes.
Na dor, nos aproximamos.

Na dor, nos reconhecemos.

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na tentativa de traduzir o acaso

morar aqui
e não ali
só pode ser sorte
ter a pele, os olhos,
o peso e a altura
com que nasci
só pode ser sorte
poder ter estudado
graduado
pós-graduado
só pode ser sorte
nada explica
por que vivemos assim
e não assado
só pode ser sorte
ter encontrado você
só a sorte explica
termos acontecido
e depois desacontecido
só pode ser sorte
viver a esmo
sozinho ou acompanhado
só pode ser sorte
nada explica
por que vivemos assim
e não assado
nada tem o poder esclarecedor
de minar a dúvida da mulher
na antevéspera do casamento
pensando no amor do passado
só pode ser sorte
o pretérito ainda tão presente
nas fotos, nos gestos
no jornal que embrulhou a mudança
só pode ser sorte
ver o mundo tão populoso
e não se encontrar nele
só pode ser sorte
só a sorte explica
o encontro do casal apaixonado
em meio a tantas gentes
tantos sentimentos perdidos
nada além é capaz
de traduzir o acaso
materialmente
ficamos com o “só pode ser sorte”
você aí
eu aqui
ambos andando
desencontrados no tempo
guardados no espaço
só pode ser sorte

tenho pensado em janelas

tenho pensado em janelas, na visão que temos além delas, na vista que nos proporcionam. esta foto tem alguns anos, registro do último dia que teria essa visão ao acordar. na hora, nada me representou além do tom de despedida, seguiria viagem e aquela vista seria memória a partir de então.
tenho pensado em janelas e no que vemos através delas. o sol nascia naquela manhã, o céu limpo me dizia do frio e da beleza que encontraria nas horas seguintes.
tenho pensado na beleza que encontro. pensado no belo que termina escondido atrás das cruezas que nos abatem. a mensagem de voz que recebi há pouco dizia da lua. olhei para o céu e vi a beleza que pairava, silenciosa, sobre mim.
tenho pensado nas mensagens que trocamos e na beleza que há na escolha de cada palavra. não parece, mas por causa delas, das palavras, estou aqui. escrevo e deixo-me escrever. escrevo e deixo me escreverem. componho-me das letras que troco, das letras que toco.
há alguns dias, falei com ela que tanto me disse e me confortou. uma semana depois, recebo o livro com que, num momento de profunda delicadeza, ela me presenteou. a surpresa do pacote a mim endereçado sem qualquer espera. a surpresa da beleza daquele gesto. mais que o livro em si, o que motivou o presente.
tenho pensado nas trocas. e em como sou agraciada por poder trocar tantas confidências com eles. escuto da dor da perda, de qualquer perda, e recebo o ouvido que abraça minhas dores. juntos, refazemo-nos. percorremos os caminhos já trilhados, onde machucamos pele e alma, mais uma, duas, três vezes. e, se dói, choramos de novo, se não corta mais, sorrimos ao perceber que já passou.
tenho pensado no tempo. ele passa rápido demais. não se comove com nossas fraquezas, não se abate com nossas quedas. continua, ritmado e constante, sua caminhada. tantos momentos registrados nas fotografias! tantos cortes de cabelo desde então… e o tempo, ah! o tempo, ele seguiu, sem ligar para meus apelos desesperados.
tenho pensado na dor. somos tão despreparados pra ela. tão afobados, impacientes, revoltados diante da dor. e ela volta sem que tenhamos nos fortalecido o suficiente. ela volta de maneiras distintas, mais rebuscada que antes. só para nos mostrar que somos nada, por mais que nossa ilusão nos faça crer no contrário. somos e seremos nada, por mais que nosso ego seja construído na ideia oposta.
tenho pensado na finitude. em como o horizonte que dizemos não ter fim na verdade tem. nossa visão alcança até determinado ponto, que para nós representa o fim. não enxergamos muito e às vezes não sentimos tudo o que poderíamos sentir. tenho pensado no sentimento também e em como vai se transformando e se ajustando para caber no que nos é possível. senão, morremos. senão, desistimos.
tenho pensado na janela que me mostra que há lua, há céu, há sol, há pássaros e árvores e movimento.
ainda bem.
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na manhã em que o mundo acabava

era manhã quando o mundo começou a acabar. do blindex da sacada do apartamento no décimo segundo andar, viam-se ruir prédios inteiros, numa distância ainda segura.
clara sentou-se à mesa redonda da sala, onde a toalha do jantar da noite anterior ainda repousava. afastou a taça manchada de vinho, e começou a cortar uma fatia do pão australiano. o cheiro do café inundava o ambiente, e nada parecia pavoroso para aquela mulher.
clara tinha os cabelos displicentemente trançados, usava um vestido branco de algodão, todo amassado, e andava pela casa descalça.
já tinha ouvido falar do fim do mundo, mas não sabia que o momento seria tão parecido com os filmes apocalípticos que tanto detestava. saboreava o pedaço do pão com muita manteiga, quando o gato se aninhou, assustado com os estrondos do fim do mundo, entre suas pernas.
ela riu, deu o dedo sujo de manteiga para o gato lamber, enquanto acariciava a cabeça do bichano. moravam juntos há seis anos. só os dois. às vezes, algum homem sem rosto passeava por aquele apartamento, mas não permanecia. ia embora assim que acabavam o coito. o coito, clara pensava. preferia assim denominar. havia anos não dizia fazer amor, já uma expressão sem sentido. não sentia amor durante o ato, nem antes, tampouco depois. às vezes pensava que estava mais para um depósito de porra que para uma mulher de vinte e oito anos.
seus dias alternavam-se entre o trabalho — escrevia artigos para três revistas mensais e tinha colunas semanais em dois jornais —, as idas à feira livre, ao cinema e a shows, as ligações via skype feitas categoricamente às quintas-feiras de manhã para a melhor amiga, que morava noutro país com a esposa diplomata, e a conversa telefônica diária que mantinha com a mãe.
ao terminar a refeição, clara espiou mais uma vez por entre os vidros da sacada e notou que o fim do mundo se aproximava de seu bairro. onde antes havia uma cidade, de repente, tornou-se vazio e silencioso como um céu noturno sem estrelas, como o universo que não sabemos. calculou que ainda teria algumas horas até se tornar nada. decidiu, então, que gastaria seus últimos momentos ali mesmo, em seu apartamento, ao lado do gato amarelo.
nada a assustava, pensar que tudo estava findando não lhe trazia angústia, talvez porque justamente tudo acabava, não apenas ela, não apenas aqueles que já havia amado, mas tudo e todos. não havia mais motivos para dores menores, para egoísmos, orgulhos feridos. tudo deixaria de ser.
voltou a pensar naqueles homens sem rosto que às vezes dividiam a cama e os gozos com ela. permitiu a alguns conhecerem além de seu corpo, mas um pouco de sua intimidade. talvez um erro, um descuido de sua parte. depois do coito, saíam dela — um depósito de porra — saciados. pouco falavam. iam embora.
clara, já sem expectativas em relação aos homens, aproveitava para também saciar suas necessidades humanas, respondia o pouco que lhe perguntavam, dava alguns sorrisos, beijinhos de despedida — um até breve, talvez sim, talvez não. apenas não sabia. acostumara-se com essa dinâmica. acostumara-se a ser um depósito de porra.
o gato amarelo observava, do sofá, como a mulher trancava a porta após a saída desses homens sem rosto que lá estiveram por alguns momentos e voltava para a cama, para adormecer em paz.
essa paz que não tem rosto, não tem som, não tem toque. essa paz solitária que ela não desejava compartilhar com mais ninguém, nem com o gato amarelo, pois fechava a porta do quarto para não ser incomodada pelo animal.
por que o fim do mundo lhe pareceria assustador?
resolveu despir-se para que o fim a encontrasse por inteira e sem qualquer máscara.
e, de repente, tudo escureceu.

desencontros

talvez haja um tempo
em que não precise frear encantamentos
na tentativa, pífia,
de desviar o curso de um rio

o rio nunca é o mesmo
mas não há como fazer barragem
onde a força da água
mostra a que veio

talvez nesse tempo
não seja necessário
desejar não querer

que me encontre a tempo

horror branco

entrei numa nuvem
tão branca e densa
que nada mais ouvia
nada mais via
nem meu corpo
tinha mais forma
naquela imensidão
branca,
assustadoramente branca

fazia tanto silêncio
fora e dentro de mim
tudo era tão quieto
que relaxei
permiti-me lá ficar
por horas, dias a fio
sendo envolvida
pelo silêncio branco
branco,
assustadoramente branco

depois de um tempo
a quietude incomoda
comecei a me debater
mas nada via
no deserto branco
branco,
assustadoramente branco

sentia minha pele ferida
em decorrência dos arranhões
que me dava
sentia o sangue escorrer
mas nada via
nenhum ponto vermelho ou rosa
apenas um corpo sentido
e não visto
apenas um ser existente
e não visto
um corpo de nuvem
branca,
assustadoramente branca

despertei satisfeita
por ver tanta sombra
em mim